Aprendendo a não se preocupar com o mindfulness estoico de Marco Aurélio

 

Marco Aurélio foi o imperador de Roma durante o segundo século A.C., o último na linha de sucessão de cinco imperadores conhecidos por ter governado Roma com autoridade, humanidade e competência.

Durante seu mandato, o Império Romano sofreu com uma pandemia grave na conhecida como a Peste Antonina, que iniciou no ano 165 e devastou a população do Império Romano, causando a morte de 5 milhões de pessoas.

Diante do desastre, ao invés de se preocupar e entrar em pânico ou fugir como os outros governantes ricos, Aurélio defendeu um racionalismo calmo e manteve Roma unida.

Ele criou legislações subsidiando o custo de funerais para evitar o acúmulo de corpos nas ruas. Quando o exército estava com poucos recrutas, ele recrutou gladiadores.

Quando o exército não podia pagar o custo de novos soldados necessários para substituir os mortos, ele  vendeu suas posses imperiais para financiar os custos.

Ao invés de se preocupar, ele conseguiu ver o problema, resolvê-lo, depois identificar outro problema e resolvê-lo também, sem ceder ao pânico.

Durante seu mandato, Aurélio encontrou tempo para escrever uma série de autobiografias, agora conhecidas como as Meditações.

Essas Meditações são consideradas como uns dos maiores trabalhos da filosofia, e é por isso que nesse artigo nós usaremos um pouco da sua sabedoria como motivação para te ajudar a não se preocupar ou se estressar demais com a atual pandemia assim como todas as outras coisas que nós tendemos a nos preocupar diariamente em nossas vidas modernas.

Número 1. Tudo é apenas história se repetindo

Marco Aurélio diz: “Não interessa o que aconteça, mantenha isso em mente: é a mesma coisa de sempre, de um ponto do mundo para o outro.” É a história se repetindo.

Nada disso é novo.  Atualmente, a maioria de nós está preocupado, com razão, sobre as incertezas a respeito do novo coronavírus, uma vez que estamos no meio de uma pandemia mundial, com cidades e até países parando.

Alguns de nós estão em áreas já afetadas pelo coronavírus, outras estão se preparando para o que pode vir e todos nós estamos vendo as manchetes e se perguntando: “O que irá acontecer em seguida?” Nós não sabemos como seremos impactados exatamente, ou o quão ruim as coisas podem ficar e as pessoas estão entrando em um ciclo de preocupação em excesso e pânico.

Se você está preocupado em perder o seu emprego, perder seu dinheiro, se seu parceiro vai te deixar,  milhões de pessoas já passaram por isso no passado e estão passando pelas coisas  as quais você está preocupado agora. Isto te trás um senso de humanidade compartilhada e de uma certa forma lhe tira do lugar de vítima e de que as coisas só acontecem com você.

Isso significa que vivenciamos o mesmo padrão de vida como um ciclo, apenas com formatos diferentes e com personagens diferentes.

Ele diz que o que quer que esteja acontecendo hoje, já aconteceu antes. Se o mundo está enfrentando crises hoje, o mundo já enfrentou algo similar no passado, como a peste negra, SARS, gripe espanhola, ebola e a praga antonina.

Mas de acordo com Aurélio, isso é apenas a vida manifestando os mesmos padrões. A história nos ensinou que esse padrão de vida nunca muda enquanto vivermos. Tudo é momentâneo e nada é verdadeiramente novo. Aceitar que nada é permanente, aceitar o momento do jeito que ele se apresenta é uma atitude do Mindfulness.

Preocupação é o que acontece quando sua mente está focada em pensamentos negativos, resultados incertos ou  coisas que podem dar errado e até pode ser benéfica.

Quando pensamos sobre uma situação incerta ou desconfortável, como não conseguir pagar o aluguel, ou ir mal em uma prova, nosso cérebro é estimulado. Quando nos preocupamos, isso acalma nosso cérebro e nos leva a resolver problemas ou tomar uma atitude. De certa forma, a preocupação é uma forma do seu cérebro resolver problemas para te manter seguro.

Sendo assim, preocupações, dúvidas e ansiedades são uma parte normal da vida e, enquanto é natural se preocupar com uma conta não paga, uma entrevista de emprego que se aproxima, ou um primeiro encontro, a preocupação normal se torna excessiva quando ela é persistente, incontrolável, lhe tira a paz e o sono.

Nos preocupamos constantemente, todos os dias, com esses “e se…” e com os piores cenários possíveis. O que parece ser desconfortável e assustador agora, será antigo e familiar amanhã. Então ao invés de se preocupar tanto, busque manter a calma porque nós humanos somos seres adaptáveis e temos uma capacidade única de mudar conforme o padrão de mudanças da vida.

Número 2. Ignore o barulho

Marco Aurélio disse uma vez que “Isso nunca deixa de me surpreender: nos importamos mais com a opinião deles do que com a nossa própria.”

Vivemos em um mundo barulhento e nossos pensamentos são constantemente influenciados pela grande variedade de barulho vindo de outras pessoas, sob a forma de julgamento e opiniões, que fazem suas decisões baseadas em medo e ganância.

Às vezes, o barulho dessas pessoas tem grande influência em provocar nossos medos e nos deixam ansiosos sobre nós mesmos e os problemas que podemos enfrentar no futuro.

Em troca, acabamos dando atenção demais a essas pessoas e gastamos muito do nosso tempo e esforços se preocupando com o que elas pensam de nós. Isso ocorre devido ao nosso desejo natural de ser querido por todos.

Então constantemente procuramos por aprovação sem perceber o quanto essa atitude de agradar todo mundo sabota nossa auto confiança e nos deixa mais preocupados.

Quanto mais buscamos a aprovação dos outros, mais nos tornamos escravos deles. Os antigos Estoicos estavam bem à frente de seu tempo no que diz respeito a não ser influenciado pela opinião das outras pessoas. Eles diziam que nós não controlamos a opinião dos outros e as coisas que não controlamos são irregulares e quanto mais valorizamos coisas que estão fora do nosso controle, menos controle teremos.

A verdade é que não importa o quanto a gente tente, nunca conseguiremos agradar todo mundo. Não importa o quanto tentamos, sempre terão pessoas que guardarão rancor de você, que terão inveja de você, que te julgarão, te odiarão, te rejeitarão e assim por diante.

Nos importamos demais com essas pessoas e sobre as coisas ruins que elas dirão para nós se fizermos algo que contrarie suas vontades.

Existem muitas razões possíveis do porquê eles dizem o que dizem e porque eles pensam o que pensam. Poderia ser ignorância, frustração, inveja, mas eles podem estar falando sobre algo que realmente nos falta. Se esse é o caso, resolva, porque ficar chateado por causa do resto é perda de energia.

Se preocupar com o que eles falam ou pensam sobre você é tão tolo quanto ficar chateado com  o clima. A voz deles precisa ser ignorada. Então mais do que nunca é importante ficar atualizado com as últimas notícias de fontes confiáveis sobre o vírus, mas se constantemente assistimos ao noticiário ou lemos na internet, buscando o placar de mortes, começaremos a acreditar que não há nada mais acontecendo no mundo além dessa pandemia e isso não é verdade.

Então é melhor investir nosso tempo em algo que podemos mudar como fazer algo melhor como, por exemplo, ligar para um velho amigo para se reconectar ou realmente investir tempo e energia em habilidades que você queira aperfeiçoar.

Número 3. Pratique Mindfulness

Nas palavras de Marco Aurélio: “Lembre-se de que não é o futuro ou o passado que te aflige, mas sempre o presente.”

O Mindfulness Estoico é sobre ver o que está ao seu alcance em qualquer situação, focando em fazer isso bem e sobre tratar outras pessoas com gentileza. Ao invés de sentir medo do pior resultado futuro, mindfulness significa se concentrar no presente e fazer o melhor dele. Então se você está preocupado com o momento atual, pare, respire e se pergunte: o que eu posso fazer hoje para ter um resultado diferente?

Enquanto a preocupação te leva ao medo e ao pânico, com atenção plena é mais provável que você contemple o momento presente com a respiração consciente. Ao levar a sua atenção para a respiração, seu corpo, mente ficam no mesmo lugar, no agora, e isso reduz o estresse.

Mindfulness pode ainda te fazer apreciar muito mais você mesmo, seus relacionamentos e o mundo. Você pode praticar mindfulness em qualquer lugar, não precisa de posição difícil e nem esvaziar a mente.

Comece prestando atenção em uma única respiração, depois aumente para um minuto, até chegar 10 minutos diariamente.

A ideia é dar à sua mente um descanso dos estímulos sensoriais constantes de todas as suas atividades e apenas deixar que ela se acalme naturalmente.

Particularmente agora, em 2020, nossa situação é uma incerteza extrema. Nós não sabemos o que vai acontecer, quanto tempo vai durar ou como as coisas vão estar quando isso acabar.

Uma coisa que sabemos, entretanto, é que se preocupar sobre isso não muda o resultado e neste instante, muito do tempo pessoal que costumava ser parte da nossa rotina diária: a condução ao trabalho, tempo sozinho em casa, ir a uma loja, não estão mais disponíveis.

Isso torna muito mais importante a prática de mindfulness para recarregar as energias. Você pode escolher separar um tempo todo dia para praticar. De manhã, medite assim que acordar, assim você não dará chances para a procrastinação. Praticar mindfulness ajuda a nos trazer de volta ao presente e nos mantêm aterrados, pois o passado é história e o futuro ainda não chegou. A mudança só acontece no momento presente.

Número 4. Sirva-se

Como Marco Aurélio sucintamente escreveu: “A vida é curta. Isso é tudo o que se tem para dizer. Pegue o que puder do presente – de maneira pensativa, justa.”

Nós humanos vivemos no que pesquisadores chamam de “ambiente de retorno tardio”. A maior parte das escolhas que você faz hoje, não te beneficiam imediatamente. Se fizer um bom serviço no trabalho hoje, você receberá o pagamento em algumas semanas. Se economizar dinheiro agora, terá o suficiente para uma aposentadoria mais tarde.

Muitos aspectos da sociedade moderna são projetados para recompensas tardias em algum ponto no futuro. Enquanto outros animais se preocupam com problemas imediatos como evitar predadores ou procurar abrigo em uma tempestade, humanos também se preocupam com possíveis problemas no futuro.

Infelizmente, viver em um ambiente de retorno tardio, frequentemente nos leva ao estresse crônico e ansiedade, porque a parte mais nova do nosso cérebro e mais frequentemente associada com o maior raciocínio, o neocórtex, pouco evoluiu desde nossos ancestrais paleolíticos há cerca de 200 mil anos atrás, diferente da nossa evolução social, que só acelera.

Portanto, a incompatibilidade do nosso cérebro antigo com nosso ambiente novo tem um impacto significante na quantidade de preocupação, estresse e ansiedade que experimentamos hoje.

Como não podemos voltar no passado e mudar a linha do tempo da nossa civilização, nossa melhor opção é mudar nossas preocupações de problemas de longo prazo para rotinas diárias que vão ajudar a resolver esses problemas.

Por exemplo, ao invés de se preocupar em viver mais, foque em fazer uma caminhada todos os dias. Ao invés de se preocupar em perder peso para o casamento, foque em fazer um jantar saudável hoje à noite.

A grande sacada que faz essa estratégia funcionar é ter certeza de que sua rotina diária te recompense regularmente e te impeça de se preocupar com incertezas futuras.

Em outras palavras, essa estratégia é basicamente aproveitar ao máximo o seu hoje, seu presente. De maneira similar, se você está preocupado com a incerteza da pandemia atual, você pode mudar sua preocupação se perguntando: como eu posso aproveitar meu dia ao máximo hoje?

Se está incerto com seu emprego, você pode mudar sua preocupação para aprender uma nova  habilidade que possa servir como uma vantagem para que mantenha o emprego ou encontre uma nova carreira empolgante.

Seu único propósito é aproveitar o presente ao máximo sem se preocupar muito com o seu futuro. Planos são importantes sim, mas é necessário presentificar ou seja trazer o futuro para o presente com ações.

Número 5.  Sirva aos outros

Marco Aurélio nos pergunta: “Ajudar aos outros é menos valioso para você?  Não vale seu esforço?”

Os estoicos acreditam que cada momento é apenas outra oportunidade de praticar a gentileza. Quando a praga e a fome atingiram o império, corpos começaram a ser empilhados e mesmo quando todas as pessoas ricas do império fugiram, Marco Aurélio decidiu ficar em Roma.

Ele permaneceu bravamente e fez tudo o que podia, convocando sacerdotes de todas as seitas e médicos de todas as especialidades, viajando pelo império em uma tentativa de expurgá-lo da praga, usando toda técnica de purificação conhecida naquele tempo.

Ele participou de funerais. Fez discursos. Ele apareceu para o seu povo, mostrando que não dava mais valor à sua segurança do que à sua responsabilidade. Ele se manteve forte para os outros. Ele não iludiu nem deu falsas esperanças ou números enganosos ao povo.

De fato, ele estava realmente tocado pelo sofrimento do povo que ele chorou publicamente depois de ouvir alguém dizer “Abençoados são aqueles que morreram na praga.” Um bom líder é forte, mas sente profundamente a dor dos outros. Um bom líder é compassivo!

A maior parte de nós gostaria de se ver como uma pessoa gentil e quer se comprometer a ajudar a sociedade, mas acabamos não alcançando ou falhando em o que quer que dissemos que faríamos.

Entre as atividades da nossa vida diária e a preocupação excessiva com o que pode ou não acontecer no futuro, esquecemos o mundo a nossa volta e os outros nele que precisam da nossa ajuda hoje.

Nós frequentemente não mostramos gentileza porque não temos dinheiro suficiente para doar. Porém, existem outras formas de ser gentil que não envolvem dinheiro. Você pode ser gentil mostrando respeito aos outros, doando seu tempo para ajudar um grupo de pessoas.

Você pode doar coisas velhas que você não precisa mais, sejam elas roupas ou eletrodomésticos. Você pode ser voluntário em lugares pela sua cidade.

A verdade é que qualquer ato de gentileza pode nos ajudar a demonstrar aquela identidade positiva e nos fazer sentir orgulhosos de sermos quem somos.

Uma vez que estamos orgulhosos de nós mesmos, e temos a autoconfiança, paramos de nos preocupar com o desconhecido. Sabemos que cada momento é uma oportunidade para praticar a compaixão. O que eu posso fazer para acolher e diminuir o sofrimento do outro?

Esse texto foi inspirado vídeo postado por Philosophies for Life

 

 

 

 

 

 

 

 

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